Apresentação

A todo instante nos deparamos com idéias e ficamos dialogando e buscando compreende-las, porém elas fogem do espaço e do tempo e por muitas vezes não sabemos como elas se aplicam, como se tornam palpáveis. E é disso que este blog trata, idéias e onde elas se revelam, através do discurso creio podermos buscar meios de tornar o conceito e a palavra concretos e objetivos. Vivemos numa grande ironia, desenvolvemos as tais idéias que sempre escaparão da trama.

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quinta-feira, 18 de março de 2010

Passado de hoje


O passado por muitas vezes pode nos parecer estranho, um momento lúdico no qual, de forma nostálgica, desejamos retornar. As ilusões eram mais presentes porém me transmitiam muito mais sentido do que hoje as coisas me aparentam. A medida que crescemos vamos perdendo a capacidade de coexistir com a ilusão e sempre buscamos dar nomes e formas as coisas. Tentamos, como um senhor idoso que sonha com os "anos dourados", resgatar aquela beleza do olhar, mas percebemos cada vez mais que o nosso antigo "olhar" presenciou tantas coisas que teve que aprender a ver.

Tem muito tempo que não faço uma postagem, tinha acabado de remodelar o blog mas, de tanto ver, tive que abandonar aquilo que exige dedicação mas não gera frutos. Se necessitamos tanto de uma troca palpável para podermos ver, não seria isso um condicionamento ao invés de um aprendizado?

Muitos de nós simplesmente reagem aos estímulos da existência, buscam entender o que lhe rodeia na tentativa de ver e assim aprimorar nossa tão estimada ferramenta de sobrevivência, o saber. Mas o saber não seria desprovido de sentido se sua função ficar diminuta a idéia de conquista? Acho que a verdadeira inversão de valores que os "maduros" tanto falam não reside na diferença entre as gerações, mas sim quando desaprendemos a aprender.

Esse pequeno chaveiro esta guardado em minhas tralhas desde que eu tinha uns sete anos de idade, meu tio viajou ao Irã à trabalho e trouxe essa lembrança pra mim. Lembro perfeitamente o quanto fiquei maravilhado com isso, por mais que fosse criança o chaveiro mostrou-me que um outro mundo existia de forma tão real quanto o que eu vivia. Por mais que "visse" mais do mundo pela televisão, revistas e coisas do gênero, nada seria mais real do que um objeto feito a mão por uma pessoa de outro mundo, quase que literalmente. A aproximação da alteridade!

Hoje deixamos de aprender com os simples fatos da vida, buscamos categorias e preceitos morais para poder entender tudo a nossa volta. A simples existência das coisas não mais nos ensina! A verdadeira inversão de valores, estes que são um dos elementos ordenadores de nossa realidade, encontra-se no momento que deixamos de ver o mundo a simplesmente passar os olhos. Se reside no momento que somente reagimos, e não aprendemos.


sábado, 7 de novembro de 2009

L. A. Costa Pinto e o conceito de "Marginalidade Estrutural"


Luiz de Aguiar Costa Pinto é um sociólogo nascido na Bahia em 1920. Em 1937, na cidade do Rio de Janeiro, conquista posição de destaque na formação de Ciências Sociais. Começa a atuar no movimento estudantil comunista que o leva a ser preso em 1939. Em sua militância, Costa Pinto publica seu primeiro livro criticando o fascismo e o nacionalismo. Em 1943, começa a dar aulas na Universidade do Brasil e a participar de forma intensa na UNESCO em uma pesquisa sobre relações raciais no Brasil com enfoque na Bahia, em seguida aponta para a necessidade de desenvolver um braço da pesquisa para o Rio de Janeiro, executando isso com sucesso. Na faculdade da Bahia, Costa pinto leciona direito e através de seu pai faz contato com vários pensadores importante, incluindo-se aí Arthur Ramos com grande importância pela participação na UNESCO.

Costa Pinto se preocupa com a estrutura arcaica do Brasil e se esforça pela superação da mesma para assim, o Brasil poder atender aos ideais modernos do ocidente, introduzindo assim o conceito de “marginalidade estrutural” que denuncia a acomodação da estrutura do Brasil que não o permitia a desenvolver-se em direção a modernidade.

Em sua concepção de contemporaneidade, Costa Pinto nos fala da existência de tempos distintos na mesma sociedade, se distinguindo assim das teorias evolucionistas por serem muito otimistas. Em sua concepção de mudança social, tem uma abordagem cética quanto ao caminho certo rumo a um patamar da estrutura social, que pela teoria evolucionista, seria superior. Apesar de toda a sua cautela, Costa Pinto ainda acredita que seja possível mudar o futuro e atribuir-lhe uma fisionomia, apesar desta empreitada fugir do nosso controle absoluto.

Contrário a qualquer traço fundamental marxista, Costa Pinto afirma que as transformações econômicas em determinada sociedade não provocam, necessariamente, transformações em todas as esferas sociais. Estas mudanças sociais não são produtos das ações de “grandes homens”, mas sim, em certa medida, com as modificações das relações trabalhistas.

Estas transformações, rumo à modernização, iriam coexistir com a estrutura arcaica, havendo um permanente diálogo entre a tradição e a modernidade. Costa Pinto aponta para a importância do conflito, não o abordando de forma corretiva e sim como sendo uma forma integrante da sociedade, especialmente aquelas que se encontram em processo de transformação social. Este processo não seria lento nem harmonioso, muito pelo contrário, seria marcado por uma pegada turbulenta e conflituosa.

Para entender essa transição, Costa Pinto da grande ênfase nas transformações do mundo do trabalho. O enfoque do seu trabalho se da na introdução da Petrobrás na região onde faz seu estudo, e como ali se dará a compreensão da forma de trabalho que serão conflituosas, pois havendo transformações no trabalho, há repercussões em outras esferas. É na análise deste contexto que Costa Pinto introduz o conceito de “marginalidade estrutural”

Em 1947, publica a obra “Sociologia e Mudança Social” distinguindo a Sociologia Acadêmica da Crítica. Sua crítica à Sociologia Acadêmica se da ao fato que, para Costa Pinto, esta não consegue sair de um nível de abstração que não possibilita o real conhecimento da realidade, acabando por se apresentar como um único paradigma possível. A “utopia da mistificação conservadora” naturaliza as relações, repercutindo na reprodução do status quo. Já a Sociologia Crítica se compromete com a tomada da posição militante, ou seja, utiliza-se da Sociologia na temática da mudança social acerca do Recôncavo, assim como em toda a sua obra.

Sua distinção entre desenvolvimento e modernização esta no cerne da hipótese da “marginalidade estrutural” (presente em qualquer sociedade em processo de mudança), esta seria a resposta principal para os problemas que bloqueiam as transformações radicais.

A sociedade em desenvolvimento é necessariamente diferente na questão de desenvolvimento em diferentes partes desta. Elas não se modificam no mesmo ritmo, esta diferença de ritmo na estrutura social é um caráter elementar das sociedades em transição. Havendo um prevalecimento da estrutura arcaica em detrimento da falta de predominância da nova estrutura. Não havendo um dualismo no qual há um novo padrão com todas as soluções para tal sociedade, abordagem esta opositora à teoria evolucionista. “A dualidade consistiria na coexistência de dois padrões: de arcaísmo e progresso.”

A modernização, diferente do desenvolvimento, é marcada pela transformação externa da sociedade que repercute em transformações internas, como novos padrões de consumo e instituições sociais mais avançadas que não necessariamente implicam em mudanças na estrutura socioeconômica; já o desenvolvimento é caracterizado pela mudança interna propositalmente provocada com repercussões internacionais.

Em relação ao papel do Estado, Costa Pinto nos diz que as classes dirigentes têm maior poder sobre o aparelho do Estado e assumindo a direção política. Neste contexto, o estado é uma ferramenta de controle para a manutenção da ordem estabelecida, assegurando assim a estabilidade e permanência da ordem tradicional e da classe dirigente. Já no processo de desenvolvimento, o Estado deixa de atender somente ás demandas das classes dominantes e passa a se tornar independente, sendo a fonte do desenvolvimento através da iniciativa de promover a mudança social, podendo de esta maneira o Estado assumir as mais diversas funções.

Caio Costa também percebe uma ambivalência no que diz respeito às classes sociais. Existe a dicotomia em relação à urbanização/industrialização, que promove transformações no padrão social, e o padrão social. Percebe, pelo conceito de “marginalidade estrutural”, diversos padrões de estratificação social. As classes sociais do presente coexistem com a estratificação típica do padrão tradicional.

Em sua obra, Costa Pinto tenta evidenciar a convivência de grandes empresas petrolíferas com padrões de relações tradicionais. Seu foco são as transformações sociais nas relações trabalhistas. Para isso, observa a propriedade, relações contratuais e as formas de produção. A transformação na estrutura econômica não levaria necessariamente à transformação na estrutura como um todo.

Como se pode observar, Costa Pinto da uma grande ênfase na possibilidade de mudança na estrutura social do país, havendo assim possibilidade de termos um futuro mais adequado. Diferentemente das teorias lineares marxistas, Costa Pino é cético quanto à possibilidade do desenvolvimento social como uma característica natural, pois para ele há a necessidade de empenho para que, independente da sociedade, alcancemos uma sociedade melhor. Entretanto, por mais que sua teoria universalista se foque na questão da “marginalidade estrutural” e das mudanças nas esferas sociais, falta-lhe material etnográfico que de mais verossimilhança à sua teoria.


 Referência Bibliográfica

COSTA PINTO, L. de A. Recôncavo: Laboratório de uma experiência humana. 2 Edição. Salvador, Editora Costa Pinto, 1997.

VILLAS BOAS, Gláucia. http://www.ifcs.ufrj.br/~nusc/costa_pinto.pdf. Acessado em: 04/10/2009 às 23:50


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Coronelismo, Enxada e Voto

Em sua obra “Coronelismo, Enxada e Voto”, Victor Nunes Leal busca, para compreender o fenômeno da vida política, entender o coronelismo. Sua preocupação é a maneira de desenvolvimento do poder a partir do município. Visa compreende-lo também a partir dos conceitos de processo e estrutura que demonstram tratar-se de uma tentativa de conhecimento de um sistema que não se resume ao coronel.

O coronelismo seria o resultado da combinação de determinada forma de regime representativo e um contexto socioeconômico, sendo caracterizado como uma forma adaptativa do poder privado a uma política representativa, além da troca entre o poder público em ascensão e o poder decaído dos senhores de terras. Essa troca ocorre, pois o governo necessita do sufrágio da população rural que é dependente destes senhores de terras.

Como não fica difícil de observar, a liderança deste sistema se encontra nos coronéis que resumem em si diferentes instituições sociais (incluindo-se as funções policiais) em decorrência do fato de - por serem proprietários de terras – possuírem maneiras de se obter financiamentos.

Sua influência política decorre da concentração de propriedade, da colonização oficial que garantia mão-de-obra para os fazendeiros, da colonização particular que criou condições para atrair correntes imigratórias, da aglutinação de pequenas propriedades em volta das grandes de modo a garantir mão-de-obra para a grande lavoura e devido à influência do meio urbano.

No que diz respeito às despesas eleitorais, estas eram arcadas pelos fazendeiros e chefes locais. A população rural seria indiferente ao sufrágio, e, desta maneira, seria natural que ela seguisse os conselhos de quem tudo lhe provê. Essa falta de espírito público da população também é associada ao chefe político, porém esta crítica é contestada ao se declarar o zelo deste chefe pelo progresso do município, que ocorreria devido ao seu interesse e a sua obstinação. É com esta prestação de serviço público que o coronel se mantém na liderança.

As ações do coronel que visavam gerar benefícios para o município ocorrem de forma paternalista, que, segundo Nunes Leal, é causado pelo grau de incultura do interior (NUNES LEAL, p. 39). O filhotismo por sua vez tem dois lados, por um ele acumula pessoal na esfera municipal e usa da máquina pública nas eleições, por outro se caracteriza pelo mandonismo manifesto nas “perseguições aos adversários” nos períodos de eleições.

Entre tais períodos, o grupo que esta no poder angaria novos coronéis e cabos eleitorais. Entretanto, os coronéis são marcados por uma infidelidade partidária, pois suas alianças são feitas a base de benefícios materiais, e não por princípios políticos.

Nunes Leal afirma que o coronelismo caracteriza a decadência da estrutura rural do Brasil, e que este sistema é marcado pela relação do poder local com o estadual. A insuficiência do poder público fortalece os coronéis que assim detêm funções do Estado em suas mãos. Entretanto, o movimento é contrário, visto que a ausência do poder público é reduzida pelo desenvolvimento do transporte e da tecnologia.

O poder estadual não se subordina ao proprietário de terras, mas necessita de seu intermédio. Mas ainda assim, o político é de suma importância para o fazendeiro no contexto municipal. Desta maneira, Nunes Leal identifica o coronelismo como um sistema de reciprocidade entre os chefes municipais e os coronéis e o governo estadual que trocam respectivamente eleitores por verba, emprego, favores e polícia.

Por essência, esse compromisso se caracterizava pelo apoio aos candidatos governistas das eleições estaduais e federais por parte dos chefes locais, e, em toca o governo estadual daria a carta branca ao chefe local nos assuntos municipais. Esse compromisso nos deixa evidente que há um problema na autonomia municipal, existente justamente pela falta dela. Entretanto, esta fala de autonomia legal é contrabalanceada pela autonomia “extralegal, que por si só é a carta branca cedida pelo governo estadual.

Desta maneira, os candidatos não são eleitos devido a uma “seleção espontânea”, mas sim de uma escolha coagida. Devido ao compromisso coronelista, a capacidade de manipulação do governo livra a esfera municipal de diversos riscos, pois este direciona o eleitorado aos candidatos do governo.

Ainda que o coronelismo seja um sistema de troca de poder entre os donos de terras e as autoridades estaduais, ele possui duas fraquezas básicas. A primeira é justamente a falta de poder do dono de terras, e a segunda, a fraqueza da população rural. A força do coronelismo é inversamente proporcional ao desenvolvimento urbano, sendo benéfico ao coronelismo o seu isolamento que por si significa a ausência ou defasagem do poder público.

Nunes Leal nos chama a atenção para não confundirmos o patriarcalismo colonial (marcado pelo crescimento do poder privado) com o coronelismo (marcado pela decadência do poder privado). O crescimento dos dirigentes do estado fortifica o poder público refletindo-se na política partidária. Sendo assim, os chefes locais não têm outra opção a não ser apoiar o governo.

O fortalecimento do poder público não significa o enfraquecimento do coronelismo, mas sim a sua preservação. É a fragmentação do poder do dono de terras que torna necessário o apoio estadual de modo a garantir a conservação da conjuntura política local.

Na verdade, o coronelismo é afetado pelo aperfeiçoamento do processo eleitoral e pelo declínio da coesão estatal nas eleições.

Como se pode observar em sua Obra, Nunes Leal afirma por diversas vezes que o coronelismo simboliza a decadência da estrutura rural, onde há um “(...) pleno funcionamento do sistema, o qual, por sua vez, procura estabilizar aquela situação favorável e consolidar, por meios políticos, o poder privado residual que a caracteriza” (Nunes Leal, p. 256). Em contra partida, instâncias superiores a estas da esfera municipal intensificam a decadência da estrutura rural ocasionado a crise do coronelismo. Se não houver outros meios de submeter os chefes locais ao governo do estado, a crise se intensificará.

Como apontado no princípio desta resenha, Victor Nunes Leal não propõe soluções para a questão do coronelismo. O autor acaba por elogiar a moralização da vida pública e observa na pobreza uma fonte de “atraso cívico e intelectual” (Nunes Leal, p. 258) que poderá vir a criar obstáculos a causas de ordem superior à transcendência do coronelismo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
LEAL, Victor Nunes [1949]. Coronelismo, Enxada e Voto: O Município e o Sistema Representativo no Brasil. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O movimento teórico da sociologia

Em seu artigo "O Novo Movimento Teórico", Jeffrey Alexander fala sobre o momento da teoria sociológica (1987). Diz que se encontra em crise, mascando uma era pós-fundamentalista. Em oposição ao fundamentalismo, surgem duas revoluções teóricas. Uma é a escola da micro - teorização que se foca na centralidade da interação social, e também surge a escola da macro-teorização, que se preocupa com as estruturas coletivas coercitivas.

Entretanto, paralelamente ocorre um desanimo e falta confiança em ambas as escolas, o que provoca um regresso em suas teorias. Isso aconteceu devido à unilateriedade de suas teorias, o que não possibilitava que se sustentassem, e este será o tema do artigo de Alexander. Para ele, as ações e estruturas destas escolas precisavam ser articuladas.

O que Alexander pretende com este artigo é analisar esta mutação na teoria geral. Antes de tudo, ele busca explicar as razões que legitimam uma teoria geral e sua defesa.

A defesa será elucidada a partir da natureza das ciências socais, ou seja, também falará dos modos discursivos propriamente teóricos. Mostrará também, que estes modos discursivos possuem características distintas dos empíricos. Ademais, irá explanar o desenvolvimento das respostas de tais escolas para a teórica funcionalista com critérios próprios de legitimação. Por fim, irá elucidar de maneira simples o que poderia ser um "modelo sintético" da relação entre ação e estrutura.

Na linguagem da ciência social, os temos de microsocioliga e macrosociologia tem sido identificados como a distinção entre o foco empírico de um lado, e por outro na interação social, formando em conjunto um sistema social completo.
Alexander Homans, ao apresentar a teoria das trocas renovou a posição utilitarista que servia de base a Parsons. Homans renegava a tradição coletivista, assim como a tendência interpretativa da teoria individualista. Afirmava que a vida social não era constituída por elementos extra-individuais, mas por atores racionais. Desta maneira, as forças sociais que agem sobre o indivíduo só poderiam ser estudadas de maneira objetiva e externa.

Sua teoria das trocas fez renascer a microsociologia, e abordava também que era através da decisão do custo da troca que os atores faziam com que as “condições sociais objetivas” se articulem na vida do indivíduo, instituições e grupos.
Outras vertentes da microteoria se inclinavam para o “interpretativismo”. Blumer desenvolveu outra vertente que diz se o “eu” do ator e não o “eu” social que determina a ordem descrita por Blumer, pois o ator não é identificado como portador da ordem coletiva, e sim a relevância situacional imediata.

Por outro lado, a etno-metodologia se mostra mais complexa. Garfinkel tem como objeto a maneira na qual os atores usam suas regras sociais. Ele afirma que através de técnicas cognitivas o ator realiza eventos contingentes as regras socialmente estruturadas de maneira representativa. Neste caso, as regras além de específicas, são mutáveis.

Assim como ocorre com outras teorias, a etno-metodologia precisa legitimar-se sob aspectos mais gerais ao longo de seu desenvolvimento. Ela, entretanto, se mostra mais inclinada a uma sociologia alternativa, afirmando a prática individual como estando acima das estruturas sociais. Segundo este argumento, podemos observar que tendo as técnicas constitutivas como onipresentes, é possível afirmar que a ordem social é contingente e a prática da atividade ordenada se identifica como a própria ordem social. Entretanto, este argumento é contestado inclusive por outras vertentes da etno-metodologia.

Alexander observa um novo movimento pendular, numa tentativa de retorno ao campo teórico multifacetado. As teorias que até o momento lideravam o campo sociológico se mostram insatisfatórias. Teóricos que até o momento se focalizavam na microteoria tentam por sua vez obter observações estruturalistas sob a ação social. E, em contrapartida, “macro-teóricos” tentam por sua vezz rever suas terias para incorporar o ator social e a ação contingente.

Desta maneira, Alexander propõe que para se estruturar esse novo movimento teórico deve-se teorizar a cultura com uma bagagem sociológica sem prejudicar a criatividade e não se deixar cair no idealismo, ou seja, fazer a soma entre os estudos culturais e a sociologia. Alexander também afirma que a ciência social caminha de duas maneiras: por meio da lógica generalizante, e por meio da racionalidade dos experimentos empíricos.

Artigo na íntegra: O Novo Movimento Teórico

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O "Sentido da Coloniação" de Caio Prado Júnior




A obra “Formação do Brasil Contemporâneo” de Caio Prado Júnior é uma das principais obras que visam compreender o Brasil desde seu período colonial. Em sua obra, Caio Prado faz uma larga descrição da situação administrativa, econômica e social do Brasil desde o período colonial até o início do século XIX. Essa época é considerada pelo autor como o resultado da colonização depois de três séculos e também um momento chave para compreender a ele mesmo e ao próprio Brasil após a crise de 1930. Mas ainda assim, Caio Prado denuncia que o Brasil, mesmo após a independência, ainda conserva traços do Brasil colônia como os latifúndios e concentração demográfica no litoral.


Para Caio Prado, o Brasil foi criado no sentido de ser um fornecedor de mercadorias para a Europa, e, mesmo após a independência, ainda mantém características coloniais. Outro destaque da obra de Caio Prado, é a sugestão bem aplicada do autor do marxismo no estudo historiográfico e analítico do Brasil colonial. É através desta perspectiva que Caio Prado explica a formação da sociedade colonial e suas possibilidades de desenvolvimento. Desta maneira, o sentido histórico é um exemplo prático da história como um processo de subsistência das necessidades e bens fundamentais para a vida, ou seja, um exemplo prático do materialismo histórico. Sendo assim, o sentido histórico do Brasil colonial, simboliza a satisfação das necessidades materiais e econômicas da metrópole. Tal processo gera concentração de capital pela metrópole e divide a forma de produção, repercutindo uma subordinação da metrópole sob a colônia.

Caio Prado Júnior tem uma forma original de interpretar o Brasil, introduzindo o materialismo histórico na história do Brasil desconfiando da possibilidade de transformação que o capitalismo poderia provocar. Ele parte do abstrato, buscando compreender o sentido da colonização, para o concreto, demonstrando os resultados práticos do processo de colonização. Caio Prado entende como “sentido” a história de um povo analisada num processo de longa duração observando-se os elementos essenciais (aqueles que direcionam os acontecimentos gerais) existentes. Desta maneira, Caio Prado visa pensar o específico sem perder de vista o movimento que lhe transcende.

Ele percebe uma continuidade de sentido entre o passado colonial e o tempo contemporâneo. Por isso busca compreender o Brasil contemporâneo a partir de seu passado, de modo a perceber qual é o sentido histórico do Brasil. No caso, a produção de capital externo.

Caio Prado faz este cruzamento, pois pretende que o futuro escape da produção de capital externo. Esse sentido de produção de capital produz uma divisão do trabalho internacional conservando o Brasil numa condição de subordinado perante outras nações. Desta maneira, Caio Prado vê a colonização do Brasil como um produto da produção mercantil da Europa. A exploração portuguesa deixa de ser uma aventura, como teria afirmado Gilberto Freyre, e passa a ser uma forma de produção de capital.

A obra de Caio Prado Júnior é de suma importância para o compreendimento do Brasil do século XIX tendo como partida seu período colonial até a época do livro. Caio Prado demonstra, com certa polêmica, como o Brasil ainda se encontrava imerso em influências capitalistas, e como essa posição pode ser superada através da introdução da população excluída na sociedade.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Festa Imaginária – Um ato de protesto

Flash MOB

Sexta – 09 de outubro de 2009

Cinelândia – RJ – 18 hr

Festa Imaginária

A conquista do tempo livre no mundo do trabalho e estudos transcende o direito de descanso e implica a oportunidade do exercício de funções individuais tais como distrair, desenvolver-se etc. Portanto, o tempo livre se inscreve num tempo social que permite a livre expressão do individuo em sociedade.

O lazer pode se tornar um tempo de “fuga” ou “anestesiante” o lazer que esvazia o homem de sua interioridade pelo processo de massificação. É o vazio, o nada, o tédio, a alienação que vem como lazer, porém, aqui podemos encarar mais como um “antilazer”. E não é desse tipo de lazer que estamos falando!

É justamente nesse sentido que vemos o papel social importante das festas de musica eletrônica que abrem espaços no interior da sociedade e ela não é apenas um espetáculo onde se joga com a realidade e com o imaginário, mas, igualmente, oferece a possibilidade para uma participação ativa onde se criam momentos para a libertação física e psíquica propiciando a vivencia da conviviabilidade e solidariedade.

A festa é uma verdadeira “recr(e/i)ação” ao contrario de muitas formas de lazer pobres em criatividade, convivialidade e comunhão cominutária. Somos ainda capazes de resolver, pelo menos no plano simbólico, as contradições da vida social, apontando assim, para seu poderoso papel de mediador entre as estruturas econômicas, bem como entre as diferenças sociais e culturais, estabelecendo pontes entre grupos e indivíduos, realidade e utopias, além de suas mediações simbólicas entre o sagrado e o profano. Um ritual moderno capaz de reforçar o sentido de cidadania proporcionando um despertar da consciência do grupo, de comunidade. Por essas razões, entre outras, às festas, tem uma tríplice importância: cultural, por colocar em cena valores, projetos, artes e devoção; como modelo de ação popular e como produto turístico capaz de revitalizar e revigorar muitas cidades.

Pelo fim da burocracia.
Pela liberação das raves.
Pela música eletrônica como movimento cultural.

=Como vai funcionar?


Flash Mob são aglomerações instantâneas de pessoas em um local público, para realizar determinada ação inusitada, previamente combinada, após o que, as pessoas se dispersam tão rapidamente quanto se reuniram.

A duração desse FM (Flash Mob) é de 30 minutos.

= Onde?

Cinelândia – Centro do Rio de Janeiro em frente à Câmara

= Porque participar?

Será um ato irreverente e civilizado de protesto. Queremos chamar atenção e assim despertar a curiosidade.
Sua participação é fundamental, assim como o seu bom humor.
Tudo será registrado, filmado, fotografado e vamos repercutir o máximo que pudermos esse ato na mídia, pra que assim, possamos criar debates a respeito do tema.

= O que devo levar?

- I-pod, ou qualquer tocador de musica;
- Fones de ouvido;
- Suas melhores musicas;
- Malabares;
- Se vista como se estivesse indo pra uma noitada ou de forma bem irreverente.

= Como vou saber quando começou? E o que fazer?

Vídeo de inspiração:







As 18 hr em ponto a ação ira começar, tendo como “start” o som de um apito.
Dêem o play nos seus tocadores de mp3 e ajam como se estivesse em uma festa real, dançando, bebendo alguma coisa, batendo um papo com o som nas alturas... enfim... CHAME O MAXIMO DE ATENÇÃO! Faça com que as pessoas que estejam passando pelo centro, não entenda nada do que esta acontecendo ali!


Teremos algumas performances acontecendo, como malabaristas e uma performance chamada CORPINTURADAS (veja o vídeo pra mais detalhes).







Cartazes serão distribuídos e você também pode trazer o seu.

NÃO traga nenhum cartaz sobre drogas.
O controle dessas substancias é responsabilidade do governo e não temos nada haver com isso. O uso ou repudio a essas substancias é algo pessoal e que também nada tem haver com essa ação.

= E quando acabar?

As 18:30 em ponto saia do foco da ação. Não de explicação a ninguém. Simplesmente aja normalmente, como se aquilo tivesse sido um “surto” e saia deixando as pessoas curiosas...

As pessoas que participarem, podem marcar alguma coisa antes ou depois da ação, porém pedimos, pra que o efeito do FM não se perca, que se houver algum encontro, não seja no mesmo local.

= Divulgue, divulgue, divulgue!

Pedimos a sua participação ativa nesse momento para poder convocar a todos pra esse ato, que além de ser uma nova forma de protestar, sem duvida será muito divertido.
É hora de demonstrar nossa união independente do gênero musical em nossos tocadores portáteis de musica, estaremos ali por acreditar que através da UNIÃO podemos começar a mudar as coisas por aqui.
Baixe o Mídia Kit do Festa Imaginária e divulgue por tudo quanto é canto.

DOWNLOAD

No Midia Kit você vai encontrar:

- Texto formatado pra divulgação no orkut.
- e-Flyer
- Avatar retangular pra ser usado no facebook, orkut e outras mídias
- Avatar quadrado pra usar no MSN
- Userban pra ser usado na sua assinatura dentro do Plurall ou em outros fóruns.

Unidos temos a força

sábado, 12 de setembro de 2009

Sobre Casa-Grande e Senzala

No início de sua obra, Gilberto Freyre toma a miscigenação como o seu problema inicial, partindo também do pressuposto que raça é diferente de cultura, discriminando os efeitos genéticos dos sociais, da herança cultural e do meio. Esta é à base de Casa Grande e Senzala.


Para Freyre, a miscigenação aproxima os antagonismos, democratizando o que a monocultura latifundiária aristocratizou. Desta maneira, a raça e a religião não são os elementos principais da formação patriarcal do Brasil, e sim a cultura, a constituição da família (unidade colonizadora) e a religião.


Freyre toma o Brasil como realização da aptidão portuguesa com base na agricultura, estabilidade patriarcal da família, mão de obra escrava e miscigenação de brancos com índios. Para tal, os portugueses contaram com a sua predisposição à colonização, devido ao seu passado étnico e cultural como povo indefinido e ao antagonismo que se apresenta em tudo que é seu, desde hábitos até características de fontes étnicas diversas. É esta “imprecisão” do português que o possibilita a conviver com elementos que se opõe. Este antagonismo português é o que caracteriza a colonização do Brasil e a formação de sua sociedade.


A miscigenação foi o processo no qual os portugueses supriram sua carência de “volume humano” para a colonização. Somando-se a mobilidade herdada do elemento semita na cultura portuguesa, que permitiu ao português ter condições físicas para o êxito nesta empreitada, e a adaptabilidade o português foi favorecido como conquistador de terras, pois já era adaptado ao clima africano, tendo assim facilidades para se adaptar ao clima tropical do Brasil.


Devido a estas características, o português pode triunfar onde outros europeus falharam. O colonizador português foi o primeiro a mudar a base de colonização extrativista para produtora de riquezas, gerando uma colônia de plantação onde o colono permanecia na mesma. Ao chegar ao Brasil, os portugueses vêem a terra e o homem aqui presentes em seu estado “bruto”, e esta ausência de riquezas e de organização comercial levam-no a estabelecer aqui a exploração agrícola.


As plantações não foram investimentos estatais, mas realizadas pela iniciativa privada que povoou e militarizou as terras brasileiras. A iniciativa privada promoveu a miscigenação, o latifúndio e a escravidão, possibilitando o desenvolvimento e a estabilidade da colônia agrícola. Esta iniciativa privada é “liderada” pela família, que é o grande elemento colonizador, sendo esta a grande aristocracia da América.


Diferentemente da França e da Espanha, os portugueses não trazem ao Brasil o separatismo político nem divergências religiosas; o país formou-se da unidade da raça. O Brasil era aberto a estrangeiros, desde que fossem católicos, pois para o português “igual” era aquele que professa a mesma fé. Temia-se que o não católico perturbasse a solidariedade que Portugal desenvolveu em conjunto a religião católica. Para Freyre, o catolicismo foi o cimento da unidade brasileira.


Em relação à inferioridade física do brasileiro, Freyre diz que esta era atribuída a questões da raça ou do clima, porém ele denuncia que este era um problema de nutrição. A economia latifundiária que possibilitou o desenvolvimento econômico do Brasil prejudicou as fontes nutricionais. Desta maneira ele ia de contra as teorias racistas.


Em conjunto a problemática da desnutrição, Freyre chama a atenção para o problema da sífilis, que era a doença da casa grande e da senzala, sendo esta sifilização o correspondente a vantagem da miscigenação.


A primeira fase do povoamento é de grande importância para a miscigenação e para a sifilização, foram os primeiros colonos que permitiram que a colonização fosses possível, culminando na formação poligâmica de uma sociedade híbrida, e, desta maneira, gerando filhos mestiços e difundindo a sífilis pela comunidade indígena.


Como fica claro para Freyre, a todo instante a formação do Brasil é formada por relações antagônicas, sempre um lado se beneficiando do outro, seja o português explorando o trabalho escravo, seja usando as índias para aumentar o volume humano para a colonização. Esta ação sádica, que caracteriza a relação de conquistador sobre conquistado, senhor de engenho sobre escravo, dentre diversos outros antagonismos, é a ação ligada à circunstância econômica da formação patriarcal, influenciando a esfera política e social.


Na mediada que a esfera libertária do povo brasileiro é aparada pela masculinidade e aristocracia do governo brasileiro, a tradição conservadora se sustenta na “defesa da ordem”. É neste antagonismo (liberdade e ordem) que a política brasileira se equilibra, onde o negro, servindo de mediador entre a cultura portuguesa e a ameríndia, possibilita a aproximação de extremos.


Em toda a sua obra, o que se pode destacar é a valorização da miscigenação em contrapartida as teorias raciais de inferiorização do mestiço, levantando a idéia da democratização racial e da equivalência da miscigenação à democratização. Entretanto, sua obra ainda mantém muito presente a idéia de raça que virá a não ser mais utilizada. Neste ponto, Freyre ainda mantém uma tradição de observação da sociedade tendo como um dos parâmetros a questão “raça”. Diferentemente de outros autores, Gilberto Freyre não toma a raça como elemento central, distinguindo dessa maneira o conceito de “raça” do de “cultura”.


Dessa maneira, Freyre estabelece um novo patamar analítico para interpretar o Brasil, para isso ele faz uma análise dos elementos que permitiram a persistência e a colonização portuguesa. Para tal utiliza-se de dois modelos científicos: o modelo histórico, recriando o período colonial e anterior de modo a compreender a formação da sociedade brasileira; e o modelo comparativo, onde disserta as diferenças entre a colonização portuguesa e a inglesa e espanhola, as capitanias do nordeste e do sudeste, dentre diversas outras comparações.

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